{"id":1763,"date":"2022-08-05T09:06:46","date_gmt":"2022-08-05T12:06:46","guid":{"rendered":"https:\/\/ilabrasil.com.br\/blog\/?p=1763"},"modified":"2022-09-05T20:21:39","modified_gmt":"2022-09-05T23:21:39","slug":"o-abraco-do-amigo-ao-professor-antonio-augusto-cancado-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ilabrasil.com.br\/blog\/o-abraco-do-amigo-ao-professor-antonio-augusto-cancado-trindade\/","title":{"rendered":"O abra\u00e7o do amigo: ao Professor Ant\u00f4nio Augusto Can\u00e7ado Trindade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia em que recebi a not\u00edcia de que o Professor Ant\u00f4nio Augusto Can\u00e7ado Trindade nos deixara \u2013 o mesmo de seu falecimento \u2013 envolvi-me em auxiliar minha filha em uma tarefa de escola que consistia na leitura de um livro chamado <a href=\"https:\/\/www.moderna.com.br\/literatura\/livro\/mania-de-explicacao-1\"><em>Mania de Explica\u00e7\u00e3o<\/em><\/a>, de Adriana Falc\u00e3o. A obra, fascinante e consagrada na literatura infantil \u2013 saberia eu depois \u2013 \u00e9 uma esp\u00e9cie de gloss\u00e1rio de palavras que remetem a sentimentos os mais profundos, todos explicados, ainda que de modo denso, em uma linguagem acess\u00edvel \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando est\u00e1vamos nos encaminhando para o final do livro, deparamo-nos com a seguinte defini\u00e7\u00e3o: \u201cSaudade \u00e9 quando o momento tenta fugir da lembran\u00e7a pra acontecer de novo e n\u00e3o consegue.\u201d N\u00e3o completei a frase. Depois disso, somente solucei e chorei. Minha filha me olhou. N\u00e3o disse palavra. Ela sabia o que se passava. Seu sil\u00eancio foi como um acalanto. Uma mensagem de que ali come\u00e7ava um luto do qual eu n\u00e3o deveria nem poderia fugir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse mesmo dia que o Professor F\u00e1bio Morosini gentilmente me pediu para escrever o obitu\u00e1rio do Professor. Respondi que acreditava que n\u00e3o conseguiria, pois me faltavam for\u00e7as. Todo luto \u00e9 perda, e com ela vem a transforma\u00e7\u00e3o. Eu ainda me pergunto quem sou neste mundo sem meu querido professor. Nem sei se me reconhe\u00e7o aqui. N\u00e3o pesa somente a falta dos seus conselhos e palavras de incentivo, mas a falta de um ideal. Como certa nota ausente de uma melodia, aquela que a tornaria perfeita. A lacuna que a nota deixou, contudo, \u00e9 a causa mais profunda do que torna a melodia imperfeita: o quase tudo que repentinamente se torna o nada absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao recordar-me daquele dia, lembro de outro, quando o Professor me contou que havia sido convidado para ministrar o Curso Geral da Academia de Direito Internacional da Haia. Abracei-o, ent\u00e3o, t\u00e3o fortemente, fazendo minha aquela conquista excepcional. Era um gesto, um abra\u00e7o, que eu n\u00e3o mais conseguiria repetir. Era, enfim, o momento que tentava fugir da lembran\u00e7a para novamente acontecer, mas n\u00e3o aconteceria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um grande amigo se foi, mas n\u00e3o me sinto, de nenhuma maneira, habilitado a escrever um obitu\u00e1rio enquanto descri\u00e7\u00e3o minuciosa de sua vida profissional e de seus feitos. Isso deve ser tarefa de pesquisa detida e elaborada, ainda mais tendo em conta a quantidade de material escrito pelo Professor. Buscarei, de fato, repassar alguns aspectos de sua vida profissional e certas de suas conquistas sob a perspectiva de um estudante que o tomou, desde muito cedo, como refer\u00eancia acad\u00eamica e \u00e9tica a ser seguida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dificilmente um estudante inicia a leitura da obra de seus mestres pelos escritos iniciais destes. O mais comum \u00e9 recorrer \u00e0s obras consagradas e, posteriormente, enveredar pelos caminhos originais que levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do autor. Curiosamente, comecei a ler a obra do Professor Ant\u00f4nio Augusto, ainda nos tempos de minha Gradua\u00e7\u00e3o, por um de seus primeiros escritos, intitulado <em>Considera\u00e7\u00f5es Acerca do Relacionamento entre o Direito Internacional e o Direito Econ\u00f4mico<\/em>. A obra me impressionou pela maturidade que demonstrava \u2013 sendo que seu autor tinha apenas cerca de 25 anos e, naquele tempo, 1972, h\u00e1 pouco havia se formado em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais. T\u00e3o impressionante como o livro era o pequeno pref\u00e1cio escrito pelo Professor Washington Peluso Albino de Souza. Duas frases, do par\u00e1grafo inicial, chamaram enormemente minha aten\u00e7\u00e3o e frequentemente me voltam \u00e0 mente. Dizia o Professor Albino de Souza: \u201cO presente trabalho coloca-nos diante de um jovem jurista consciente do objetivo que se tra\u00e7ou e afincado \u00e0 dif\u00edcil tarefa de realiz\u00e1-lo\u201d. E, mais adiante, completava: \u201cA partida para Cambridge, em estudos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que lhe permitam aprofundar-se ainda mais na \u00e1rea eleita, confirma a seguran\u00e7a de um invej\u00e1vel saber querer.\u201d Quem seria esse autor t\u00e3o obstinado? Quem teria tamanho afinco a uma dif\u00edcil tarefa? Quem seria merecedor de t\u00e3o elegante elogio: o de estar seguro de um invej\u00e1vel saber querer? Essas frases contidas no pref\u00e1cio me faziam ver que a obra do Professor Ant\u00f4nio Augusto n\u00e3o era somente um produto intelectual, mas o exerc\u00edcio de uma devo\u00e7\u00e3o visando \u00e0 plenitude do esp\u00edrito: uma ascese, em outras palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ter consci\u00eancia de que os escritos do Professor eram uma forma de ascese torna muito mais f\u00e1cil entender aquilo que j\u00e1 intrigou muitos: por que sua premiada tese de doutorado (Pr\u00eamio Yorke), na Universidade de Cambridge, teve as impressionantes 1728 p\u00e1ginas. O sentimento de estupefa\u00e7\u00e3o somente aumenta se se sabe que o tema da tese, o esgotamento dos recursos internos, tradicionalmente era visto como uma pequena parte do cap\u00edtulo da responsabilidade internacional. Certamente n\u00e3o se tratava de um dos grandes temas do direito internacional em 1978, quando foi defendido o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tese foi publicada parcialmente no formato de artigos e dois livros \u2013 em <a href=\"https:\/\/www.repository.cam.ac.uk\/handle\/1810\/250737\">ingl\u00eas<\/a> e, em vers\u00e3o mais enxuta, em <a href=\"https:\/\/loja.editora.unb.br\/direito\/esgotamento-de-recursos-internos-no-direito-internacional-220\/p\">portugu\u00eas<\/a>. Desde a d\u00e9cada de 1970, o Professor Ant\u00f4nio Augusto pretendia erodir ainda mais o espa\u00e7o soberano dos Estados ao defender que o esgotamento dos recursos internos tinha car\u00e1ter apenas procedimental \u2013 n\u00e3o condicionava, portanto, a pr\u00f3pria exist\u00eancia da responsabilidade internacional. Cabia ao juiz internacional interpretar a regra \u2013 e principalmente atenu\u00e1-la \u2013 para abrir espa\u00e7o \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o do Estado em diversos dom\u00ednios, especialmente no campo dos direitos humanos. Ao falar sobre esgotamento dos recursos internos, a tese falava constantemente sobre a linguagem dos direitos humanos \u2013 ainda quando n\u00e3o se referia explicitamente ao tema. Com isso, o Professor n\u00e3o apenas se juntava aos esfor\u00e7os em torno da implementa\u00e7\u00e3o dos direitos humanos \u2013 por meio dos tribunais internacionais \u2013 mas abria um grande espa\u00e7o para que se falasse sobre direitos humanos no Brasil em pleno momento de reabertura pol\u00edtica. Foi a maneira que encontrou para se opor \u00e0 ditadura militar. Especialmente as partes da tese publicadas em portugu\u00eas demonstravam uma nova forma de pesquisar sobre direito internacional no Brasil \u2013 o que \u00e9 demonstrado pelo rigor no uso das fontes e, especialmente, pelo recurso a casos judiciais e \u00e0 pr\u00e1tica dos Estados. N\u00e3o se pode negar que essa nova forma fosse impactante por ter fortes origens no sistema jur\u00eddico anglo-sax\u00e3o, algo que n\u00e3o era comum no direito internacional que se praticava no Brasil dos anos 1970. O mais relevante, no entanto, \u00e9 que tal forma j\u00e1 estava paulatinamente se afirmando academicamente e na dogm\u00e1tica do direito internacional tamb\u00e9m em sistemas jur\u00eddicos de tra\u00e7o romano-germ\u00e2nico: princ\u00edpios mais abstratos come\u00e7avam a ceder espa\u00e7o a normas embasadas na pr\u00e1tica estatal e no julgamento de casos por tribunais internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a defesa exitosa de sua tese de doutorado, o Professor Ant\u00f4nio Augusto se tornou professor do Curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Bras\u00edlia \u2013 de onde somente se retiraria com a aposentadoria, muitos anos depois. A rela\u00e7\u00e3o de afeto para com a Universidade era rec\u00edproca: se ele exercia com muito carinho a doc\u00eancia, a institui\u00e7\u00e3o, especialmente por meio de seus estudantes, mas tamb\u00e9m de professores e t\u00e9cnicos-administrativos, reconhecia as suas qualidades como um educador comprometido. Pode-se dizer o mesmo de sua atua\u00e7\u00e3o como professor do Instituto Rio Branco, que teve in\u00edcio alguns anos ap\u00f3s o ingresso na Universidade de Bras\u00edlia, e durou mais de vinte anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 1985 e 1990, o Professor Ant\u00f4nio Augusto ocupou o cargo de Consultor Jur\u00eddico do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Seus pareceres, para al\u00e9m do alto valor doutrin\u00e1rio, expressam uma significativa preocupa\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica brasileira em mat\u00e9ria de direito internacional. N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o que, nesse per\u00edodo, ele d\u00e1 corpo \u00e0quilo que j\u00e1 levava a cabo em sua obra, desde a tese de doutorado: a ado\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo comparado por meio da publica\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/funag.gov.br\/biblioteca-nova\/todos\/0?busca=Repert%C3%B3rio%20da%20pr%C3%A1tica%20brasileira%20do%20direito%20internacional%20p%C3%BAblico&amp;filtro=1&amp;ord=1\"><em>Repert\u00f3rio da Pr\u00e1tica Brasileira do Direito Internacional P\u00fablico<\/em><\/a>, em 6 volumes. \u00c9 nessa obra que se pode come\u00e7ar a responder, efetivamente, a pergunta sobre uma eventual tradi\u00e7\u00e3o brasileira do direto internacional, e n\u00e3o a partir da especula\u00e7\u00e3o calcada em um ufanismo exacerbado ou um senso cr\u00edtico sem fundamento. A import\u00e2ncia do Repert\u00f3rio \u00e9 essencialmente demonstrar que o direito internacional que se quer construir precisa revisitar um passado articulado em v\u00e1rias pe\u00e7as fragmentadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O per\u00edodo como consultor jur\u00eddico coincide com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, e foi essencial para fornecer as bases da percep\u00e7\u00e3o que seria seguida, nos anos seguintes, por v\u00e1rios internacionalistas e mesmo pela pol\u00edtica externa brasileira em quest\u00f5es de direitos humanos. Foram alguns de seus pareceres que abriram caminho para a ratifica\u00e7\u00e3o, por parte do pa\u00eds, dos principais tratados de direitos humanos. Ademais, a atua\u00e7\u00e3o do Professor Ant\u00f4nio Augusto na Assembleia Nacional Constituinte foi decisiva para a consagra\u00e7\u00e3o do \u00a7 2\u00ba do art. 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o, que foi originalmente elaborado como uma cl\u00e1usula constitucional aberta, apta a incorporar direitos oriundos de tratados no mesmo n\u00edvel hier\u00e1rquico que normas de natureza constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dos anos 1990, o Professor passa a se dedicar mais direta e intensamente a temas relativos ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. \u00c9 na d\u00e9cada de 1990 que iniciam suas fun\u00e7\u00f5es como juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, primeiramente como juiz <em>ad hoc<\/em>, e, posteriormente, como juiz eleito &#8211; o que se estender\u00e1 at\u00e9 a segunda metade da d\u00e9cada de 2000. A sua influ\u00eancia como juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos \u00e9 definitiva para moldar a jurisprud\u00eancia daquele tribunal at\u00e9 os dias atuais \u2013 o que certamente foi refor\u00e7ado por sua posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a como vice-presidente e presidente. Aquilo que hoje parece trivial no labor da Corte foi alcan\u00e7ado em grande parte por seu esfor\u00e7o incans\u00e1vel e pessoal, tal como a consagra\u00e7\u00e3o do <em>jus standi<\/em> das v\u00edtimas ou a desnecessidade do dano como elemento constitutivo da responsabilidade internacional. A isso, agregue-se a introdu\u00e7\u00e3o de ideias que teriam um impacto muito al\u00e9m dos pr\u00f3prios limites da disciplina do direito internacional, como o dano ao projeto de vida ou a relev\u00e2ncia do papel da mem\u00f3ria na repara\u00e7\u00e3o por viola\u00e7\u00f5es a direitos humanos. Tais posi\u00e7\u00f5es eram calcadas em uma bem fundamentada agenda n\u00e3o somente de expans\u00e3o da linguagem dos direitos humanos, mas sobretudo de incremento da posi\u00e7\u00e3o do juiz no direito internacional. Guardadas algumas diferen\u00e7as, eu percebia, j\u00e1 neste momento, no Professor Ant\u00f4nio Augusto, a continua\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio que moveu um dos internacionalistas mais influentes do s\u00e9culo XX, Hersch Lauterpacht. A constru\u00e7\u00e3o de um <em>international bill of rights<\/em> e o reconhecimento do papel relevante e criador do juiz internacional foram as principais marcas do trabalho de Lauterpacht depois de 1945. Tamb\u00e9m em termos de concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, as semelhan\u00e7as recrudescem: \u00e9 somente em suas fases mais maduras, enquanto pensadores do direito internacional, que Lauterpacht e o Professor Ant\u00f4nio Augusto se associam mais explicitamente ao jusnaturalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante n\u00e3o esquecer que o jusnaturalismo professado pelo Professor era calcado n\u00e3o numa ideia de dualidade de ordens jur\u00eddicas em que uma delas se afasta do mundo em busca de um conceito ideal de justi\u00e7a. Para ele, a justi\u00e7a \u00e9 constru\u00edda a partir de v\u00e1rios rastros que a pr\u00e1tica internacional deixa \u2013 sejam os Estados, os tribunais ou os indiv\u00edduos. \u00c9 na consagra\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica que \u00e9 moldada a ordem jur\u00eddica almejada por uma concep\u00e7\u00e3o jusnaturalista. Isso somente refor\u00e7a como o m\u00e9todo comparado de recurso \u00e0 pr\u00e1tica foi importante para a constru\u00e7\u00e3o de sua obra inicial e posterior. Por exemplo, a ideia de consci\u00eancia jur\u00eddica universal somente pode ser encontrada a partir do labor de uma investiga\u00e7\u00e3o rigorosa. \u00c9 o que se pode claramente perceber de sua <em>magnus opus<\/em> dedicada a temas gerais de direito internacional, o j\u00e1 mencionado curso que ministrou, na Academia de Direito Internacional da Haia, em 2005: <a href=\"https:\/\/brill.com\/view\/title\/57052\"><em>International Law for Humankind: Towards a New Jus Gentium<\/em><\/a>, em dois volumes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 2009, o Professor Ant\u00f4nio Augusto inicia suas fun\u00e7\u00f5es como juiz da Corte Internacional de Justi\u00e7a e aquilo que j\u00e1 era patente em sua atua\u00e7\u00e3o na Corte Interamericana de Direitos Humanos s\u00f3 se intensifica pelo palco universal que agora tem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. O juiz (internacional) possui o papel de ver e desvelar aquilo que j\u00e1 se encontra, ainda que de modo esparso, no sistema jur\u00eddico internacional. Dois casos podem ser lembrados nesse sentido \u2013 que o moviam profundamente, recordo-me, tamb\u00e9m no n\u00edvel pessoal. No <a href=\"https:\/\/www.icj-cij.org\/en\/case\/143\"><u>caso das <\/u><u><em>Imunidades Jurisdicionais do Estado<\/em><\/u><\/a>, em que foi, sozinho, voto vencido na maioria dos pontos resolutivos da senten\u00e7a, a defesa da ideia de que graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas sob o manto de atos de imp\u00e9rio constituem, em verdade, <em>delicta imperii<\/em>, era uma forma de, por meio do exerc\u00edcio jurisprudencial internacional, e do juiz como ator privilegiado, levar um conceito j\u00e1 existente no sistema jur\u00eddico \u2013 o da imunidade relativa de jurisdi\u00e7\u00e3o do Estado \u2013 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Com isso, pretendia fazer com que a categoria de atos de imp\u00e9rio, que permanece mesmo quando se adota a imunidade relativa de jurisdi\u00e7\u00e3o, colidisse consigo pr\u00f3pria em casos envolvendo graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Outro exemplo \u00e9 o caso das <a href=\"https:\/\/www.icj-cij.org\/en\/case\/160\"><em>Obriga\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o da corrida nuclear e ao desarmamento nuclear<\/em><\/a>. Em sua perspectiva, n\u00e3o faltavam elementos \u2013 tratados, resolu\u00e7\u00f5es, trabalhos preparat\u00f3rios de instrumentos etc. &#8211; para demonstrar um movimento forte e vigoroso do sistema jur\u00eddico internacional contra as armas nucleares e favor\u00e1vel ao seu desarmamento. Ao identificar os elementos desse movimento forte, o juiz mostra a medida da consci\u00eancia jur\u00eddica universal para que ela possa ser aplicada e mesmo expandida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sei da parcialidade de minha posi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tenho not\u00edcia hist\u00f3rica de nenhum internacionalista brasileiro que tanto tenha se destacado mundialmente pelas posi\u00e7\u00f5es que ocupou, pela quantidade de escritos que legou e, sobretudo, pela influ\u00eancia que deixou sua obra. O Professor Ant\u00f4nio Augusto caminhou um percurso sem precedentes. E chega mesmo a ser assustador voltar, hoje, \u00e0s palavras do Professor Washington Peluso Albino de Souza. O \u201cobjetivo que se tra\u00e7ou\u201d e o afinco \u201c\u00e0 dif\u00edcil tarefa de realiz\u00e1-lo\u201d tornaram-se reais. E aquele \u201cinvej\u00e1vel saber querer\u201d foi a mola propulsora de tantas conquistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui se encontram apenas alguns tra\u00e7os da trajet\u00f3ria profissional do Professor Ant\u00f4nio Augusto, certamente insuficientes para fazerem justi\u00e7a ao seu legado. E tal legado, ainda que imenso, n\u00e3o se esgota nas tantas p\u00e1ginas publicadas. \u00c9 nos alunos que deixou e nos amigos e colegas com quem dialogou que a sua mem\u00f3ria persiste. Ele, para quem estar com as pessoas era um constante privil\u00e9gio, conseguia enxergar o direito internacional por meio delas. A afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo como sujeito internacional \u2013 sobre a qual tanto falou &#8211; n\u00e3o era um postulado no mundo das ideias, mas algo que lhe era palp\u00e1vel: o que compunha a sua ascese.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, a sua maior obra continua, diuturnamente, sendo escrita. Quem conhece seus filhos, Adriano, Ot\u00e1vio e Vin\u00edcius, sabe da d\u00e1diva que o Professor Ant\u00f4nio Augusto concedeu ao mundo. D\u00e1diva que est\u00e1 sendo constantemente escrita em pedra pelas suas trajet\u00f3rias t\u00e3o cheias de bondade. Neles vejo o meu querido professor e me reacendo de esperan\u00e7a pela vida. Afinal, eles est\u00e3o nas redondilhas de Drummond, quando recorda a pr\u00f3pria filha no brilhante <em>A mesa<\/em>: \u201cEsta \u00e9 minha explica\u00e7\u00e3o,\/meu verso melhor ou \u00fanico,\/meu tudo enchendo meu nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o desejo auto penit\u00eancia, mas verdadeiramente n\u00e3o me sinto merecedor do que meu professor me ofereceu: confian\u00e7a, do\u00e7ura e sobretudo amizade expressas em tantas ocasi\u00f5es e de tantas maneiras. No mais, fica ainda o privil\u00e9gio de ter com ele convivido e aprendido a cultivar a f\u00e9 nos seres humanos e na capacidade de a justi\u00e7a encontrar um lugar na Terra. Mais que direito internacional, o Professor Ant\u00f4nio Augusto ensinou-me, com seu sorriso largo, a querer tornar-me humano, sobretudo a n\u00e3o ter medo de tornar-me humano. Isso \u00e9 tanto! \u00c9 muito mais o que um aluno, seja ele o mais aplicado, pode merecer!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ideal, que menciono no in\u00edcio deste texto, agora parece pouco a pouco me reencontrar. Qui\u00e7\u00e1 seja o sinal de que um dia o luto pela perda de meu querido Professor ter\u00e1 completado sua penosa jornada. Da\u00ed ent\u00e3o, talvez, a dor seja suport\u00e1vel. At\u00e9 l\u00e1, resta o pequeno consolo de que ele vive nas li\u00e7\u00f5es que recordarei, que me segurar\u00e1 para que evite o trope\u00e7o, que abrir\u00e1 os caminhos para que n\u00e3o me fira. E se o olvido, a queda e a ferida vierem, restar\u00e1 o exemplo de quem, sabendo se reconstruir, construiu um mundo mais justo (apesar do pr\u00f3prio mundo!). Esse \u00e9 o abra\u00e7o t\u00e3o forte que me dar\u00e1. O abra\u00e7o do mestre. O abra\u00e7o do amigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia em que recebi a not\u00edcia de que o Professor Ant\u00f4nio Augusto Can\u00e7ado Trindade nos deixara \u2013 o mesmo de seu falecimento \u2013 envolvi-me em auxiliar minha filha em uma tarefa de escola que consistia na leitura de um livro chamado Mania de Explica\u00e7\u00e3o, de Adriana Falc\u00e3o. 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